Thursday, 11 March 2010

Felicidade Interrompida

Talvez Madame Mí estivesse certa embora não soubesse. Sentia dificuldade de entender. O herói de guerra estava deitado em seu sofá. Depois de atravessar o oceano, ele estava ali prostrado. Ela o havia alimentado com o melhor de sua culinária e do que restara em seu corpo um tanto desgastado e fora de forma. Não era uma mulher ideal, como já dito outrora. Mas tinha carne, tinha textura e conteúdo. Era necessário reconhecer.

Não era comum a presença de um homem em sua casa por toda a noite. Não era comum que seus pretendentes retornassem por uma segunda vez. Ela teve milhares de amantes nos últimos tempos, mas nenhum deles tinha retornado. Todos fumavam, bebiam ,cheiravam e lhes davam esperanças. Razões para desconfiar não lhes faltavam. Desconfiar principalmente de si.

Mas naquela noite ela sentia raiva, já havia bebido meia garrafa de vodka, fumado uma carteira de cigarros, reclamado a todos os seus amigos online. Em sua loucura sentia-se rejeitada, mais uma vez. Ela precisava de dramas. Seu universo mental era povoado de pesadelos e sua vida real de frágeis deuses.
Foi advertida pela Boneca Má, para não jogar as malas do seu amante recém chegado pelas janelas do prédio amarelado onde morava. Ele que não cheirava, que não fumava que não bebia. Foi amparada e reconfortada. E assim os papéis se invertiam.

Longe, bem longe sua amiga despeitada raspava o cabelo e com a escrita frágil escrevia para si mesmo uma carta sem fim. Nenhuma nova estética, nenhuma nova moda... Puro sofrimento. O sofrimento de quem faz quimio, de quem tem um jovem amante, de quem tem dois filhos adolescentes, de quem tem um bom trabalho, de quem tem um irmão postiço, de quem tem uma viagem para Matchu Pichu programada, uma lista de coisas para fazer e muito, muito medo da morte.