Madame Mi,
Embora pesasse 120 quilos, tinha uma leveza em seu sorriso capaz de suportar o mundo.
Bastava a beleza e a doçura de suas palavras ou até mesmo a acidez de suas ironias para levar ternura a um coração endurecido.
Se o amor incondicional de seus três melhores amigos estivesse acompanhado de tesão sexual seria sua vida mais plena.
Naquela manhã por todos os homens que desejou e de quem não obteve um beijo o seu corpo doía.
Por todas as poesias e músicas que não compôs é que a sua mente reclamava.
Estava cansada e fingia sorrir para não morrer.
Embora tentasse não conseguia polvilhar com humor as suas correspondências esquecidas:“Tão lindas e tão tristes todas as existências”.
Várias vezes durante a madrugada que não amanhecia, acordava, doía... Levantava e mijava com mais um cigarro aceso no banheiro escuro.
Sete horas da manhã e ela imóvel na cama sentindo todo o peso do mundo e do irreversível tempo que lhe escapava milimetricamente, liquidamente, mente.
Um arrependimento de morte por tudo que não fez. Não fez um filho, não fez um mestrado, não comprou uma casa, não aprendeu dirigir, os livros que comprou e nunca leu e a insuportável sensação de que foi tudo em vão.
Nem naquela merda de trabalho, em que permanecia há vinte anos, ela construiu uma trajetória digna de um memorial decente. Hoje estando no esquecimento, uma espécie de apagamento institucional, a memória do que realizou, permanece apenas nos papéis amarelados dos arquivos mortos da instituição.
Os amigos... Ah, os amigos! Os amigos que antes preenchiam seus dias, estavam distantes cuidando de suas vidas. E era assim que deveria ser, e era assim que era. Agradecia a todos, a Boneca Má por lhe ouvir, rir e lhes dizer que ela era linda e maravilhosa repetidas vezes. Agradecia, sim, por ouvir suas histórias, suas dores, seus amores.
Sobre os amores de madame Mi não teceremos nenhum comentário agora, talvez numa próxima narrativa. Os homens que deitaram em sua cama, comeram sua comida e partiram sem olhar pra traz, são um capítulo a parte neste drama envelhecido, cheio de rugas e celulites.
Os exercícios físicos que não fez, quantas e quantas horas permaneceu prostrada jogando paciência no computador ou assistindo o lixo que passava na TV.
Nas tentativas frustradas de buscar amparo nas escrituras geralmente terminava seus textos com uma fuga, outras perspectivas de eldorados depois do horizonte.
Mas naquela manhã terminava assim e aqui, com saudades, como segue:
Naquela manhã acordara com uma vontade enorme de continuar no colchão... não tinha nenhum bofe escândalo entre os lençóis, não teve nenhuma noite de farras... as calcinhas de renda perdidas entre camisas xadrez e calças sociais lhe causavam um constrangimento moral de quem tem o dever de ser afirmativa em sua conduta des-humana... o livro "Ensaios Reunidos" de Samuel Rawet, presente de um psiquiatra falido e mal comido que outrora a encantou e se des-encantou lhe causara um mal estar ... vontade de vomitar todas as palavras ditas e mal ditas para aquele ser medíocre mas divino...
Como podia, perguntava a si mesma, conviver ou melhor co-morrer no meio daqueles fantasmas?... Pessoas inventadas, uma taça de vinho, um rivotril, uma prancha de surf... uma bike, um mercedez, vários cigarros.
Aos poucos foi levantando, leve anta, depilação mal feita, não sabia como pode esquecer seu prestobarba gilete... O dia estava a chover, 100 gramas de pó de maconha espalhadas pelo quarto... Fúria ... um anjo em fúria. Os papéis enfileirados, a nota de dois reais com vestígios de coca, o canudo partido, as lembranças da pista de dança do último sábado... o corpo ocioso sem trama afetiva... a roupa na máquina...
Queria ficar horas na companhia da Boneca Má a sorrir e a chorar.
Tantos quereres às vezes lhe cansava... Queria interromper o tempo e se possível resgatar os amantes perdidos entre Paris, Vinã Del Mar, Barcelona, New York, e Rio de Janeiro...
Para constatar a felicidade de outrora pegou sua caixinha de cartas e leu e releu as msgs do chileno que numa manhã de outono lamenta a sua falta e deseja o seu corpo enquanto olha fixadamente as folhas caírem. O norte americano estadunidense que em visita a NY sente frio e anseia pela sua presença. O espanhol que lamenta o pouco tempo que teve em sua companhia e torce para que a correspondência chegue em suas mãos, o parisiense que atravessa o atlântico para lhe ver em Copa, mas que desiste de lhe querer repentinamente. O melhor amigo que se enforca depois de anunciar a morte em 18 cadernos manuscritos.
Queria todos estes e tantos outros... O diplomata brasileiro que tentara lhe seduzir... O homem casado anônimo que se exibe em sua webcam.... Quem seriam estes homens, o que buscaram nela? Tantas perguntas sem respostas. Quantas oportunidades perdidas em reticências.
Como se o tempo estivesse diluindo repentinamente, mente, correu até os correios num impulso desenfreado e enviou a carta que deveria ter sido encaminhada há doze anos para Madrid e nunca recebeu notícias de volta, ligou para o chileno que já estava na companhia de outro e em seguida para o psiquiatra que lhe destratou...
As lembranças, os afetos, os desafetos... era preciso rabiscá-los para não morrer de arrependimentos.
Texto escrito por João de Deus e Adriane Pianoviski
Simplicidade e devoção.
9 years ago
