Saturday, 28 November 2009

Valquírias

Naquela manhã Madame Mi havia acordado cedo, revisto todas suas normas e conceitos diante do espelho. Pela primeira vez conhecia a resposta para o dilema de sua estética: seus lábios rosados, a pele macia. Seus olhos lhe olhavam sem susto.Pela primeira vez Ela se olhava sem espantos. Ela se via como gente.
Naquela manhã sem que o homem sem rosto estivesse lá Madame Mi percebeu que seus cabelos também não eram os mesmos e em sua ausência cantou.

Friday, 27 November 2009

Dream Machine

Por medo sim... ela prefiriu não se arriscar. o homem sem rosto era estúpido demais para ser seu. Suas palavras inventadas não foram suficientes para convencer o público que a desbancou sem nenhuma consideração. Talvez o homem impossível a tivesse enganado. Ela ficou meio sem sentidos, meio paralisada. Precisava jogar fora, ou pelo menos se desfazer instantaneamente de seus últimos sonhos-pesadelos para respirar e retomar sua performance. Aproveitou a situação para exercitar o desapego optando por desfazer-se daquele homem . Não sentia culpa, já não acreditava em suas mentiras. Não sentia medo de reconhecer a natureza perversa daquele que nos últimos meses havia a-traído a sua atenção.
A Boneca Má despediu-se do seu público, retirou-se de cena sem constrangimentos, recordando das palavras de Madame Mi que lhe alertara dias antes para que não se envolvesse, para que não se traisse. Lembrava dos apelos do homem sem rosto e de suas invenções: nos últimos dias ele quase morre de câncer, ele quase se separa da esposa, ele quase arruma uma amante, ele quase a surpreende, ele quase... sempre quase. Ela, que quando triste ou alegre era por inteira, que tinha pernas, olhos, braços, cheiro e rosto, não entendia, não se conformava. E até chorou uma vez.
Mentira,ela chorou duas vezes pelo homem sem rosto, chegando a desejar que o homem impossível e ele fossem a mesma pessoa. Chegando "a desconfiar de si com medo da própria sombra projetada no asfalto sujo, quente e áspero" . Ela ouviu coisas desnecessárias por mais de uma vez. Mas agora... Ah, agora, já não precisava mais, já tinha suas próprias vozes e podia inventar histórias sobre homens possíveis. E quando Ele se riu dela e de sua coleção de perdas... e quando ele a esnobou, ela entendeu que já não lhe era mais necessário. Que ele já tinha muitas mágoas para se envolver com sua ausência e assim ela foi, desta vez sem chorar. Ela seguiu por uma estrada contrária a que ele podia encontrá-la. Decididamente A Boneca Má nunca mais chorou por vivos mortos, e o homem impossível seria o próximo.

Tempos Tardios

A Boneca Má amanheceu exausta de tanta espera. Mais um concurso para Miss Beleza! Embora fosse a escolhida entre suas três melhores amigas. Ela não se sentia merecedora do amor do homem impossível nem desejada o suficiente pelo homem sem rosto.O tempo mais uma vez competia com a angústia terrivelmente sentida. O terreno viçoso onde sua ausência de beleza foi construída não deixava escapar as marcas de seu tédio, de seu desgosto. Evidencias de uma performatividade tardia esbanjavam na performance de seu corpo, de seu sexo e de seu olhar: o excesso.

Esforço para suprir a falta de tudo pelo avesso. E assim aprendeu a sentir aversão ao tempo. Não suportava a espera . E assim, sem dasaviso, desenvolvia estratégias de sobrevivência para o pior momento: o último.

O último adeus, o último toque, o último cheiro, o último tic-tac não lhe assustavam mais. O barulho dos carros, a velocidade do trem, o anonimato, a falta de delicadeza já não mais lhe importunavam, nem o estrangeiro.

Mas ela só tinha agora a possibilidade de um penúlimo momento onde pretendia usar todas suas virtudes e suas faltas de virtudes para eternizá-lo. Vale! vale! Vale!

Esperava como prêmio obtido obter mais tempo com o homem sem rosto e ficar mais junto do homem impossível. Mas isso era outra coisa da qual ela não gostava de falar. Ela era medrosa. Tinha medo de não saber amar e de assim sendo de não conseguir o amor destes homens.

Era ai onde investia seu quase-tudo a ponto de ficar lisa e nua: sem palvras, sem gestos.

Mas a sua amiga Madame Mi naquela noite havia ido ao circo e lhe contava coisas de como rir com a tristeza humana. Era ai onde, sobe o olhar invasivo de seu público, a Boneca Má esforçava-se para não parecer desencessária. Ela já sabia, só precisava sorrir, dizer palavras inventadas, e acreditar que era possível.