Wednesday, 23 December 2009

Memórias Póstumas

Madame Mi,

Embora pesasse 120 quilos, tinha uma leveza em seu sorriso capaz de suportar o mundo.
Bastava a beleza e a doçura de suas palavras ou até mesmo a acidez de suas ironias para levar ternura a um coração endurecido.
Se o amor incondicional de seus três melhores amigos estivesse acompanhado de tesão sexual seria sua vida mais plena.
Naquela manhã por todos os homens que desejou e de quem não obteve um beijo o seu corpo doía.
Por todas as poesias e músicas que não compôs é que a sua mente reclamava.
Estava cansada e fingia sorrir para não morrer.
Embora tentasse não conseguia polvilhar com humor as suas correspondências esquecidas:“Tão lindas e tão tristes todas as existências”.
Várias vezes durante a madrugada que não amanhecia, acordava, doía... Levantava e mijava com mais um cigarro aceso no banheiro escuro.
Sete horas da manhã e ela imóvel na cama sentindo todo o peso do mundo e do irreversível tempo que lhe escapava milimetricamente, liquidamente, mente.
Um arrependimento de morte por tudo que não fez. Não fez um filho, não fez um mestrado, não comprou uma casa, não aprendeu dirigir, os livros que comprou e nunca leu e a insuportável sensação de que foi tudo em vão.
Nem naquela merda de trabalho, em que permanecia há vinte anos, ela construiu uma trajetória digna de um memorial decente. Hoje estando no esquecimento, uma espécie de apagamento institucional, a memória do que realizou, permanece apenas nos papéis amarelados dos arquivos mortos da instituição.
Os amigos... Ah, os amigos! Os amigos que antes preenchiam seus dias, estavam distantes cuidando de suas vidas. E era assim que deveria ser, e era assim que era. Agradecia a todos, a Boneca Má por lhe ouvir, rir e lhes dizer que ela era linda e maravilhosa repetidas vezes. Agradecia, sim, por ouvir suas histórias, suas dores, seus amores.
Sobre os amores de madame Mi não teceremos nenhum comentário agora, talvez numa próxima narrativa. Os homens que deitaram em sua cama, comeram sua comida e partiram sem olhar pra traz, são um capítulo a parte neste drama envelhecido, cheio de rugas e celulites.
Os exercícios físicos que não fez, quantas e quantas horas permaneceu prostrada jogando paciência no computador ou assistindo o lixo que passava na TV.
Nas tentativas frustradas de buscar amparo nas escrituras geralmente terminava seus textos com uma fuga, outras perspectivas de eldorados depois do horizonte.
Mas naquela manhã terminava assim e aqui, com saudades, como segue:

Naquela manhã acordara com uma vontade enorme de continuar no colchão... não tinha nenhum bofe escândalo entre os lençóis, não teve nenhuma noite de farras... as calcinhas de renda perdidas entre camisas xadrez e calças sociais lhe causavam um constrangimento moral de quem tem o dever de ser afirmativa em sua conduta des-humana... o livro "Ensaios Reunidos" de Samuel Rawet, presente de um psiquiatra falido e mal comido que outrora a encantou e se des-encantou lhe causara um mal estar ... vontade de vomitar todas as palavras ditas e mal ditas para aquele ser medíocre mas divino...
Como podia, perguntava a si mesma, conviver ou melhor co-morrer no meio daqueles fantasmas?... Pessoas inventadas, uma taça de vinho, um rivotril, uma prancha de surf... uma bike, um mercedez, vários cigarros.
Aos poucos foi levantando, leve anta, depilação mal feita, não sabia como pode esquecer seu prestobarba gilete... O dia estava a chover, 100 gramas de pó de maconha espalhadas pelo quarto... Fúria ... um anjo em fúria. Os papéis enfileirados, a nota de dois reais com vestígios de coca, o canudo partido, as lembranças da pista de dança do último sábado... o corpo ocioso sem trama afetiva... a roupa na máquina...

Queria ficar horas na companhia da Boneca Má a sorrir e a chorar.
Tantos quereres às vezes lhe cansava... Queria interromper o tempo e se possível resgatar os amantes perdidos entre Paris, Vinã Del Mar, Barcelona, New York, e Rio de Janeiro...
Para constatar a felicidade de outrora pegou sua caixinha de cartas e leu e releu as msgs do chileno que numa manhã de outono lamenta a sua falta e deseja o seu corpo enquanto olha fixadamente as folhas caírem. O norte americano estadunidense que em visita a NY sente frio e anseia pela sua presença. O espanhol que lamenta o pouco tempo que teve em sua companhia e torce para que a correspondência chegue em suas mãos, o parisiense que atravessa o atlântico para lhe ver em Copa, mas que desiste de lhe querer repentinamente. O melhor amigo que se enforca depois de anunciar a morte em 18 cadernos manuscritos.
Queria todos estes e tantos outros... O diplomata brasileiro que tentara lhe seduzir... O homem casado anônimo que se exibe em sua webcam.... Quem seriam estes homens, o que buscaram nela? Tantas perguntas sem respostas. Quantas oportunidades perdidas em reticências.
Como se o tempo estivesse diluindo repentinamente, mente, correu até os correios num impulso desenfreado e enviou a carta que deveria ter sido encaminhada há doze anos para Madrid e nunca recebeu notícias de volta, ligou para o chileno que já estava na companhia de outro e em seguida para o psiquiatra que lhe destratou...


As lembranças, os afetos, os desafetos... era preciso rabiscá-los para não morrer de arrependimentos.

Texto escrito por João de Deus e Adriane Pianoviski

Saturday, 28 November 2009

Valquírias

Naquela manhã Madame Mi havia acordado cedo, revisto todas suas normas e conceitos diante do espelho. Pela primeira vez conhecia a resposta para o dilema de sua estética: seus lábios rosados, a pele macia. Seus olhos lhe olhavam sem susto.Pela primeira vez Ela se olhava sem espantos. Ela se via como gente.
Naquela manhã sem que o homem sem rosto estivesse lá Madame Mi percebeu que seus cabelos também não eram os mesmos e em sua ausência cantou.

Friday, 27 November 2009

Dream Machine

Por medo sim... ela prefiriu não se arriscar. o homem sem rosto era estúpido demais para ser seu. Suas palavras inventadas não foram suficientes para convencer o público que a desbancou sem nenhuma consideração. Talvez o homem impossível a tivesse enganado. Ela ficou meio sem sentidos, meio paralisada. Precisava jogar fora, ou pelo menos se desfazer instantaneamente de seus últimos sonhos-pesadelos para respirar e retomar sua performance. Aproveitou a situação para exercitar o desapego optando por desfazer-se daquele homem . Não sentia culpa, já não acreditava em suas mentiras. Não sentia medo de reconhecer a natureza perversa daquele que nos últimos meses havia a-traído a sua atenção.
A Boneca Má despediu-se do seu público, retirou-se de cena sem constrangimentos, recordando das palavras de Madame Mi que lhe alertara dias antes para que não se envolvesse, para que não se traisse. Lembrava dos apelos do homem sem rosto e de suas invenções: nos últimos dias ele quase morre de câncer, ele quase se separa da esposa, ele quase arruma uma amante, ele quase a surpreende, ele quase... sempre quase. Ela, que quando triste ou alegre era por inteira, que tinha pernas, olhos, braços, cheiro e rosto, não entendia, não se conformava. E até chorou uma vez.
Mentira,ela chorou duas vezes pelo homem sem rosto, chegando a desejar que o homem impossível e ele fossem a mesma pessoa. Chegando "a desconfiar de si com medo da própria sombra projetada no asfalto sujo, quente e áspero" . Ela ouviu coisas desnecessárias por mais de uma vez. Mas agora... Ah, agora, já não precisava mais, já tinha suas próprias vozes e podia inventar histórias sobre homens possíveis. E quando Ele se riu dela e de sua coleção de perdas... e quando ele a esnobou, ela entendeu que já não lhe era mais necessário. Que ele já tinha muitas mágoas para se envolver com sua ausência e assim ela foi, desta vez sem chorar. Ela seguiu por uma estrada contrária a que ele podia encontrá-la. Decididamente A Boneca Má nunca mais chorou por vivos mortos, e o homem impossível seria o próximo.

Tempos Tardios

A Boneca Má amanheceu exausta de tanta espera. Mais um concurso para Miss Beleza! Embora fosse a escolhida entre suas três melhores amigas. Ela não se sentia merecedora do amor do homem impossível nem desejada o suficiente pelo homem sem rosto.O tempo mais uma vez competia com a angústia terrivelmente sentida. O terreno viçoso onde sua ausência de beleza foi construída não deixava escapar as marcas de seu tédio, de seu desgosto. Evidencias de uma performatividade tardia esbanjavam na performance de seu corpo, de seu sexo e de seu olhar: o excesso.

Esforço para suprir a falta de tudo pelo avesso. E assim aprendeu a sentir aversão ao tempo. Não suportava a espera . E assim, sem dasaviso, desenvolvia estratégias de sobrevivência para o pior momento: o último.

O último adeus, o último toque, o último cheiro, o último tic-tac não lhe assustavam mais. O barulho dos carros, a velocidade do trem, o anonimato, a falta de delicadeza já não mais lhe importunavam, nem o estrangeiro.

Mas ela só tinha agora a possibilidade de um penúlimo momento onde pretendia usar todas suas virtudes e suas faltas de virtudes para eternizá-lo. Vale! vale! Vale!

Esperava como prêmio obtido obter mais tempo com o homem sem rosto e ficar mais junto do homem impossível. Mas isso era outra coisa da qual ela não gostava de falar. Ela era medrosa. Tinha medo de não saber amar e de assim sendo de não conseguir o amor destes homens.

Era ai onde investia seu quase-tudo a ponto de ficar lisa e nua: sem palvras, sem gestos.

Mas a sua amiga Madame Mi naquela noite havia ido ao circo e lhe contava coisas de como rir com a tristeza humana. Era ai onde, sobe o olhar invasivo de seu público, a Boneca Má esforçava-se para não parecer desencessária. Ela já sabia, só precisava sorrir, dizer palavras inventadas, e acreditar que era possível.